
Tenente Suelen, quais são as suas origens e o que a motivou a seguir a carreira militar? Conte um pouquinho sobre a Suelen Mafra da Silva.
Eu sou natural de Santa Rita de Minas, onde morei até meus 22 anos. Sou de família humilde. Minha mãe, Roseni, hoje professora aposentada, e meu pai, José Geraldo (já falecido), tinha um pequeno bar. Por influência de minha mãe, enxerguei nos estudos uma maneira de buscar minha independência financeira, cursando uma boa faculdade e passando em um concurso público. Então, me dediquei bastante e com apenas 19 anos passei no primeiro concurso que fiz; e quis o destino que fosse para soldado da Polícia Militar de Minas Gerais.
A senhora ingressou na corporação como soldado e, posteriormente, como tenente, coordenou o Curso de Formação de Soldados. Também esteve à frente da Assessoria de Comunicação Organizacional. Agora, comanda a Companhia de Abre Campo, tornando-se a primeira mulher a liderar uma companhia destacada na área do 11º Batalhão. Parabéns! A senhora acredita que a presença feminina na PMMG tem aumentado? Como vê essa evolução?
Fico muito feliz por minha trajetória até hoje na PMMG. Ingressei na PM em 2007, e após me formar soldado, trabalhei em Ipatinga e Caratinga. Em 2009 iniciei minha faculdade de Direito, para poder evoluir profissionalmente.
Em 2015, quando trabalhava em Ipatinga, passei no concurso público para a carreira de Oficial da PMMG. Trabalhei em meus primeiros anos como tenente em Manhuaçu, em funções que me orgulho muito, comandando pelotão responsável pela área central da cidade, contribuindo para a formação de novos soldados e sendo responsável pela comunicação do 11º Batalhão, com relações com a imprensa, cerimonial e marketing institucional.
Em maio de 2024, me foi confiada a missão de comandar a 272ª Companhia de Polícia Militar, responsável pelo policiamento de seis municípios (Abre Campo, Matipó, Sericita, Pedra Bonita, Santa Margarida e Caputira), estando sob meu comando mais de 60 policiais militares. Me tornei assim a primeira mulher a assumir o comando de uma companhia operacional na área do 11º Batalhão, e uma das pioneiras nesta função em toda 12ª Região PM. Me sinto muito honrada e grata a Deus por isso.
Concordo que estamos vivenciando uma evolução na instituição neste sentido. Quando ingressei na PM, as mulheres concorriam a apenas 5% das vagas. Até pouco tempo já concorríamos a 10%. E atualmente, após entendimento do STF sobre o assunto, a mulher concorre a totalidade das vagas. Como em todas as profissões e segmentos sociais, a busca por igualdade de gênero é uma realidade, e encaro esta realidade atual da PMMG como uma grande vitória para toda a sociedade.
A senhora já enfrentou ou conhece de perto algum caso de preconceito por ser mulher em uma posição de comando?
Ser mulher em atividades desempenhadas majoritariamente por homens certamente é um grande desafio. Na Polícia Militar não é diferente. Sobretudo estando em uma posição de comando. A hierarquia e disciplina, princípios basilares da PMMG, ajudam no comandamento, e nunca enfrentei grandes problemas por ser mulher. Acredito que, como sociedade, ainda que precisemos evoluir no que diz respeito à igualdade de gêneros, estamos muito melhores hoje. Isso quer dizer que, graças a tudo que já foi conquistado neste sentido, preciso me preocupar muito mais em fazer um bom trabalho, sem focar meus esforços em quebrar barreiras contra o preconceito.
Como é liderar uma unidade da Polícia Militar na Comarca de Abre Campo, com suas peculiaridades e demandas?
Primeiramente, me sinto honrada e desafiada a prestar o melhor serviço possível. Na área da companhia, que é a mesma da Comarca, cada município tem suas peculiaridades, com contextos sociais e culturais diferentes. Além de comandar a companhia, acumulo a função de comandante do Pelotão de Abre Campo, que também engloba Sericita e Pedra Bonita. Uma função é mais macro, de gestão do policiamento de toda a área da companhia, e isso me obriga a conhecer a realidade, traçar estratégias e acompanhar a prestação de serviços de segurança pública dos seis municípios. A outra é mais operacional, onde preciso estar mais próxima das demandas dos três últimos municípios citados. Alguns problemas são comuns a todos, como violência doméstica, tráfico de drogas, crimes contra o patrimônio, crimes violentos contra pessoa e desordens no trânsito. Alguns mais ou menos. Mas, de maneira geral, os municípios da área da companhia possuem índices criminais baixos, se comparados a outros municípios de mesmo porte.
Abre Campo é um município com baixo índice de criminalidade. Concorda com essa afirmação?
Abre Campo possui sim índices criminais muito baixos. No ano de 2025, não registrou nenhuma morte violenta e nenhum outro crime violento contra a pessoa, obtendo ainda uma redução de 30% nos furtos. Também estamos muito bem nos indicadores de interação comunitária, e isso contribui bastante para a redução da criminalidade. Quando há maior proximidade entre o cidadão e a PM, a tendência é realizarmos prevenção criminal de qualidade, além de bons resultados na repressão. No último ano, foram realizadas prisões contra tráfico e furtos, campanhas preventivas em parceria com outros órgãos e ações da operação Safra Segura, fortalecendo a sensação de segurança da comunidade.
Como comandante e mulher, que mensagem gostaria de deixar para outras mulheres que sonham em ocupar posições de liderança na segurança pública?
Fico feliz em poder ser algum tipo de referência positiva para outras meninas e mulheres, e o recado que posso deixar é para que acreditem em si mesmas, confiem na capacidade de vocês, se dediquem e lutem por seus objetivos, porque lugar de mulher é onde ela quiser. Seja comandante na PM, ou qualquer outra profissão, ou dona de casa, enfim, o importante é sermos fiéis ao que desejamos e ao que nos faz feliz.
