Abrecampense Ausente Cecília Ulisses Frade dos Reis

Ao estudar uma nova língua, aprendemos muito sobre a nossa língua materna. Da mesma forma, morar em lugares diferentes pode ser revelador em relação à nossa própria cidade (e a nós mesmos, e à nossa gente).

Foi por sair de Minas que eu me descobri mineira. E que, sim, nós temos um sotaque… e muitos de nós, ainda, uma disposição para conversar, uma simpatia, que nos garante fazer amizades já num primeiro contato. É isto: essa falta de timidez em falar com estranhos, algo que eu percebo, hoje, como muito nosso. Não ligamos tanto para a impessoalidade como os brasilienses ou os curitibanos, em geral.

As idas e vindas a Abre Campo ficaram mais esporádicas, para mim, conforme o tempo foi passando e a distância aumentando. Enquanto morava em Ouro Preto, podia vir em casa pelo menos uma vez por mês. Meu pai sempre me buscava na “rodoviária”. E me levava, quando eu tinha que pegar o ônibus para voltar. Depois que saí de Minas, a jornada passou a conjugar voo e estrada. Como meu pai já não pode me buscar (mas não só por isso) as vindas para cá têm, também, para mim, um gosto de falta. Um pedaço de mim que falta, mas que de alguma forma a cidade me ajuda a preencher. Alguns lugares, algumas pessoas…

Gosto que em AC nós somos todos filhos de nossos pais, netos de nossos avós… Cecília, filha de Marília do Restaurante. Filha De Wilson de Pico. Neta de Waltinho Frade.

Gosto que quando eu era criança existia o tal do “fazer parte”. Não sei se diz assim em outros lugares. Fazer parte era participar de alguma apresentação artística/ cultural na escola ou na igreja. E ao “fazer parte”, íamos fazendo nossas memórias. Assim, guardo as lembranças de apresentações organizadas pelas escolas do Fundamental – carinhosamente chamadas de grupo da Lavra, ou de cima, e grupo de baixo – que muitas vezes eram realizadas num palco na porta da Igreja Católica, aproximando o profano do sagrado, como vejo que acontece até hoje, numa forma tão interiorana de sociabilidade!

8 anos após ter me mudado de Abre Campo, tendo caminhado um pouco dentro e fora do Brasil, sigo levando muito desta cidade que me criou. Aproveito esta oportunidade para registrar minha gratidão a cada professora, colega, amigos meus e de meus pais e familiares que me ensinaram e me ajudaram no que hoje vejo como a minha primeira formação: obrigada!