Prazer, Cinthia. Não por bons modos, mas porque é realmente um prazer estar aqui, nesta coluna dedicada às memórias de Abre Campo. São 20 anos de ausência e eu ainda chamo de minha a casa da minha mãe. Talvez nessa frase esteja resumido o sentimento que carrego por Abre Campo. Nessa cidade eu nasci (pelas mãos do meu pai); eu fui criança que atravessava as árvores emendadas da pracinha por entre as folhas; eu fui adolescente que cantava ao som de algum violão na porta do Banco do Brasil. Até que a deixei, aos 15 anos, para estudar e trabalhar em Belo Horizonte. Carrego desse lugar a paz de um cochilo depois do almoço; o cheiro do doce de tacho que a minha avó fazia para o Natal e do café coado na hora para a visita que aparecesse; o barulho dos montes de brita se desfazendo enquanto subíamos e do giz branco da professora deslizando pelo quadro verde. Desses muitos anos, os últimos cinco foram de ausência do Brasil. A distância que afasta fisicamente parece só aproximar o coração. Daqui de longe me pego contando casos sobre o pão com molho da merenda da escola, as partidas de queimada no meio da rua e os bailes no Lavras, para os quais nós, moças, encomendávamos vestidos sob medida às costureiras da cidade. Em Abre Campo, eu aprendi a gostar de poesia. Nas noites em que a energia faltava, minha mãe recitava trechos de poemas que sabia de cor para minha irmã e para mim. Saber de cor é saber com o coração; é não precisar de consulta. A poesia me ensinou a amar as palavras e todos os significados que elas carregam. Para o meu coração, todos os alpendres, marquises e coretos significam infância. Todo terreiro significa flor e avó. Família é sinônimo de abraço. Afeto é almoço de domingo e bolo da tarde. E casa é onde mora a mãe. A minha casa. Ali, no espaço que se estende pelo quintal e onde o amor, forte que é, abriu passagem por entre os muros, expondo a fragilidade do que nos separa. Precisamente ali, na rua Dr. Custódio de Paula Rodrigues, em Abre Campo – de onde jamais me ausentei.

Nome: Cinthia Rodrigues Marques
Mãe: Ana Elisa Martins Rodrigues
Pai: Lorivaldo Rodrigues Marques