“A bença!” É como sempre começa a conversa ao telefone quando ligo para “minha casa”. Duas palavras que me teletransportam imediatamente a Abre Campo e que chamam a atenção de quem escuta. Seja pelo idioma, pelo sotaque ou mesmo pelos costumes distintos, pedir a bênção ao telefone parece um tanto pitoresco.
Normalmente me apresento como Gerson Bastos, mas em terras abrecampenses tenho outra identidade: Gersinho de Iris de Gerson de Moisés.
Passando minha infância em Abre Campo não pude estudar inglês extraclasse nem ter acesso à internet, o que era uma desvantagem competitiva quando cheguei à capital mineira aos 17 anos. Por outro lado, crescer em uma cidade onde não havia segregação social, onde havia somente um colégio, onde brincávamos todos juntos na rua, nos possibilitou conviver com toda uma diversidade de pessoas. Diversidade e inclusão eram a nossa realidade e não apenas palavras bonitas ou ideias politicamente corretas.
A fundação que me deram meus pais, irmãs, familiares, amigos, professores e catequistas foi o que me habilitou para alçar vôos mais altos. Apesar de já não ir à igreja com frequência, tenho consciência da importância da minha educação cristã. Até o fato de ser criado sob olhos vigilantes dos conterrâneos, na época rotulados como fofoqueiros, hoje tem o meu tardio reconhecimento positivo.
Desde que deixei Abre Campo, rodei o mundo passeando e trabalhando. Atualmente moro em Viña del Mar, no Chile, onde moro com minha futura esposa e trabalho em uma Torre de Babel com gente do mundo todo.
Mesmo depois de tanto tempo fora, é interessante como frequentemente algum abrecampense me procura buscando conselho/direcionamento profissional ou mesmo dicas de turismo. Me sinto muito honrado pela lembrança e trato de ajudar com o maior prazer.
Tenho muitas saudades da família e dos amigos. Confesso que tenho o sonho de um dia voltar à minha cidade natal e retribuir aos meus pais pelo cuidado que tiveram comigo e à comunidade com um pouco da minha experiência fora (não, não estou lançando pré-candidatura a nenhum cargo eletivo). Enquanto esse dia não chega, vou me atualizando e matando a saudade com a versão digital de O AbreCampense.
Visitar Abre Campo é viajar no tempo. Lendo edições anteriores dessa coluna, viajei no tempo e no espaço. Deixo aqui o meu reconhecimento e minha gratidão à comunidade abrecampense. Obrigado por tudo e até quando Deus quiser.