ABRECAMPENSE AUSENTE LUCÉLIA COELHO NUNES

Hoje, vou contar um pouco das minhas lembranças dessa cidade… Sou a Lucélia de Sotim e de Dona Lúcia, o pedreiro e a costureira, hoje, aposentados e moradores de Abre Campo. Sou a quarta de cinco irmãos (Consola, Luiz, Marilene e Liliana). Nasci e morei até os 19 anos na mesma casa, na Vila do Sr. Juquinha. Em agosto de 2000, deixei Abre Campo para estudar em Ouro Preto, cursei Engenharia Civil na UFOP. Foram 5 anos de muita dificuldade, grana curta e noites mal dormidas (algumas estudando, outras nem tanto…). Foi lá que conheci meu marido, Diego, natural de Guarujá/SP. Formei-me em 2005 e me casei em 2006, quando fui morar em Mariana. Trabalhei um tempo no SAAE da cidade, depois nas mineradoras (Vale e Samarco), e após o acidente com a Barragem decidi sair e me dedicar às minhas filhas e a um pequeno negócio de comidinhas saudáveis (inclusive algumas pessoas de Abre Campo foram minhas clientes). Tenho duas filhas, a Clarice, com 11 anos e a Natália, que tem 7. Mesmo tendo me mudado há tanto tempo nunca estive ausente, como eu morava perto era fácil estar aí todos os meses para visitar minha família. Em outubro de 2020, nos mudamos para Perth, na Austrália, e desde então, todo domingo de manhã tem vídeo chamada (minha mãe fala que é como se eu fosse tomar café com eles). Sempre fui muito faladeira e estudiosa, dedicada e batalhadora, mas nunca imaginei que um dia estaria morando no exterior. Mesmo estando tão longe, as minhas mais doces lembranças sempre serão as da minha cidade natal… As brincadeiras com os vizinhos lá da Vila, aquela rua tão irregular e sem calçamento, todos tão pobres, mas éramos tão felizes! Estudei no grupo da Lavra, e me lembro de cada cantinho da escola, das nossas brincadeiras no recreio na grande área gramada enquanto os meninos jogavam futebol na quadra. Lembro-me que lá havia uma árvore enorme da qual caiam umas flores brancas, cheias de pequenos fios parecendo pompons. As festas da igreja, sempre cheias de gente, quando vinham os parentes que moravam fora e era aquela farra na casa da vovó Judith. O cheiro de esterco na casa dos primos na Barreira, as rosquinhas e o bolo perfumando a casa, as animadas festas dos casamentos na família. Lembro-me de tantas pessoas bacanas, com quem aprendi muito! Gostaria de citar algumas, mas não quero correr o risco de ser traída pela memória e esquecer de alguém. Hoje, a saudade é minha companheira, e tenho certeza de que nunca me esquecerei do lugar onde estão as minhas raízes.