Diz a História: João Paulo de Abreu

Nilo de Abreu e Silva era meu irmão. Faleceu em 1995 relativamente novo, aos 68 anos de idade. Nilo era uma pessoa apaixonado por animais como cabritos, cavalos e cachorros. Gostava muito de crianças também. Tinha muito carisma com as crianças. Lembro que às vezes ele trabalha para alguém por aí e aceitava receber como pagamento um cabrito ou um cachorro. Passávamos grandes dificuldades e meu pai, carpinteiro, falava com Nilo: “-Nilo, estava esperando você chegar com dinheiro para ajudar com o sustento da família e você chega com mais um cachorro!” era mais uma boca para comer. (risos).

Bem, ele cuidava com muito carinho de todos os cachorros que ele tinha. E quando ele faleceu repentinamente no hospital de Abre Campo, optamos por velar o corpo na casa dele, pois ele gostava muito da casinha dele, então, dentre os cachorros, um cachorro que não lembro o nome ficou por ali no velório. Não colocamos maldade naquele momento. Mas ficou perto da urna e dali ele não saiu.

No dia seguinte saímos com Nilo para sepultá-lo e os abrecampenses dizem até hoje que foi um dos enterros em Abre Campo com o maior número de pessoas.  A rua da lavra ficou cheia, tinha gente saindo da casa de Nilo, aqui perto de Liginha no final da Lavra, e tinha gente chegando ao grupo escolar da Lavra, lotado. Foi uma coisa fantástica!

Então, como eu era irmão fiquei mais próximo da urna, observei aquele cachorro acompanhado o enterro. Às vezes embaixo, às vezes farejando, por ali. Quando chegou ao cemitério o cachorro passou para dentro da porta. Lembro-me bem que quando joguei um punhadinho de terra na urna olhei e o cachorro estava na beirada olhando para a urna. Visto por mim e por diversas pessoas.

Outro episódio foi Nico de Adesílio que acompanhou todo o enterro montando animal. Eles eram grandes amigos e haviam combinado que quem fosse ao enterro do outro deveria ir montado. E Nico cumpriu o combinado e foi mondado numa égua.

Quando terminou o enterro fiquei “aéreo” e não me lembrei do cachorro mais. Porém alguém posteriormente deu noticias que o cachorro ficou no cemitério até o fechamento. Trouxemos o cachorro para casa e decidimos ficar com ele enquanto ele tivesse vida e ele fazia visitas periódicas ao cemitério e dava latidos sinalizando tristeza.

Nilo era uma excelente pessoa, bom filho, bom pai de família, bom irmão, não tinha tristeza em nenhum momento, embora passava muitas dificuldades, tinha muitos filhos, e o pouco que tinha dividia também com os vizinhos que passavam mais dificuldades ainda.