Entrevista com a Abrecampense e Professora, Doutora Maria Celeste Reis Fernandes de Souza

O AbreCampense: Desde já agradeço a Senhora Professora, por atender nosso convite tão prontamente. Confesso que esta entrevista passou a ser um desafio enorme depois de conhecer um pouco da sua vida profissional com tantas riquezas de conhecimentos e experiências. Parabéns pela brilhante carreira.

Bem Professora, conte-nos um pouco da sua família aqui em Abre Campo, sua família constituída ao longo dos anos, suas visitas à terra natal e suas crenças religiosas.

 

Sou eu a agradecer pelo convite que me fez revistar os afetos que guardo da cidade e trocar ideias com  você Mikio,  com os leitores e as leitoras, sobre temas que me são tão caros, como a vida e a educação.

 

Sou filha de Wladimir e Elzira, a quem agradeço, por   terem me ensinado, pelos modos como escolheram viver as suas vidas, a “importar-me” com a vida e a buscar promovê-la. Minha mãe e meu pai construíram uma família, na qual me sinto acolhida e que acolho todos os dias com alegria (irmãos, irmã, cunhadas, cunhado, sobrinhas e sobrinhos – e os (as) companheiros(as)). Foi nesta família que aprendi, no amor à vida, o reconhecimento da presença de Deus em nossas vidas.

 

Da terra natal, guardo inúmeras lembranças, e teríamos que escrever muitas letras para dar conta dos afetos que guardo na memória e que se eternizaram, como tão bem escreve Adélia Prado (“O que a memória ama, permanece eterno”). Destaco uma experiência marcante em minha vida que foi a participação no grupo de jovens JUA “Juventude Unida Abrecampense”. Desse grupo participei intensamente, fiz amigos e amigas, rezamos juntos, sonhamos e acreditamos na força transformadora da juventude na igreja e na sociedade de modo geral – creio que quem foi e é JUA, continua acreditando nessa força. Nesse grupo me encontrei com o Sérgio, com quem há 33 anos compartilho amor, vida e a esperança de um mundo melhor e mais inclusivo. Desse casamento tenho uma filha e um filho de quem me orgulho pela sensibilidade e respeito que demonstram diante da vida.  Estou sempre em Abre Campo, mas o mais importante, não importa se estou na cidade, ou distante dela, os lugares e as pessoas sempre estão comigo.

 

O AbreCampense: Graduada em Pedagogia pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Carangola (1983), Mestre em Ciências de Lá Ecucación pelo Instituto Enrique José Varona, Havana (2001), Doutora em Educação pela Universidade Federal de Minas Gerais (2008), Pós-Doutorado pela Universidade Federal de Sergipe (2015), professora, autora de livros e artigos publicados, dentre outras diversas experiências profissionais, a Professora Maria Celeste também trabalhou dentre os anos 1981 – 1985 nas Escolas Estaduais D. João Bosco e Dr. José Grossi da cidade de Abre Campo. O que a Senhora acredita que com suas raízes e influências abrecampenses a ajudaram de alguma forma pelo Brasil afora?

 

Falar de uma trajetória na educação é lembrar da minha primeira escola na qual estudei 04 anos (o antigo grupo D. João Bosco) nas mãos carinhosas e criativas da Dona Edna, a quem reconheço como uma educadora e agradeço. Ë também lembrar de que me encantei com o magistério com as professoras do Magistério na época (Auxiliadora e Celinha) quis ser professora. Depois atuei como professora e pedagoga nas escolas da cidade: a escola municipal na Barreira, zona rural. e as escolas D. João Bosco e Dr. José Grossi. Com a direção dessas escolas, colegas e alunos (as), daquela época (1980 a 1985) muito aprendi. O que guardo para a minha vida aprendi no cotidiano com essas pessoas: no zelo pela educação, no jeito de dizer e fazer, no desejo de aprendizagem dos alunos e das alunas, nas preocupações com aqueles com dificuldades no percurso escolar, na análise das nossas próprias dificuldades e na curiosidade dos(as) alunos diante do saber e da vida. Aqui também, as letras são poucas para tantas influências que levo na bagagem pela vida afora. Mesmo nas poucas letras, abraço a cada uma das minhas colegas de trabalho e aos sempre alunos e alunas.

 

O AbreCampense: Professora Maria Celeste, constatamos diversas premiações ao longo da sua carreira. Dentre elas destacamos o Prêmio UFMG de Teses que recebeu em 2009, conferido à melhor Tese do Programa de Pós-graduação da UFMG em Educação: conhecimento e inclusão social. A Tese concluída em 2008 investigava as relações de gênero e matemática na Educação de Pessoas Jovens e Adultas. Neste artigo, descreveu o enunciado “Homem é melhor em matemática do que Mulher.” Qual foi o contexto desta frase na Tese? E o que acredita ser o contexto desta mesma frase nos dias de hoje?

 

Explicar o contexto de uma frase em uma tese não é muito fácil. Mas, o que está colocado são as desigualdades de gênero histórica e culturalmente instituídas, que tem tido efeitos perversos na vida das mulheres. Assim, me interesso pelos problemas de gênero, e na tese gênero e matemática, porque há um tipo de racionalidade na sociedade ocidental (da qual a matemática escolar é parte) que fortalece essa desigualdade, e pode inclusive justificar a violência contra as mulheres que tem aumentado nos últimos anos. Me interesso pela vida das mulheres, especialmente “a vida mera das obscuras”, como nos conta em um belo poema Cora Coralina. Assim, me interessei pelas catadoras de materiais recicláveis, pelas mulheres em situação de privação de liberdade, pelas mulheres que vivem no campo. Nos dias de hoje quando a temática de gênero ganha a mídia e as redes sociais, nem sempre com interpretações corretas, vale lembrar sobre a dignidade da pessoa humana, o respeito, a tolerância e continuar lutando por uma sociedade solidária, inclusiva e justa para todos e todas.

 

O AbreCampense: Os Projetos, com atuações da Professora, Educação de Jovens e Adultos junto à Associação dos Catadores de Materiais Recicláveis Natureza Viva e o Fórum Municipal Lixo e Cidadania e apoio a Associação de Catadores de Materiais Recicláveis Natureza Viva merecem certamente serem premiados (se ainda não foram). Parabéns Professora Maria Celeste!

Como são esses projetos e quais são seus valores sociais?

 

Uma experiência transformadora de mim mesma, foi o feliz encontro com as mulheres e os homens da Associação de Catadores de Materiais Recicláveis Natureza Viva (ASCANAVI) de quem sou eternamente devedora pelo tanto que me ensinaram como pessoas e profissionais. Me aproximei desse grupo em 2001 em um projeto de alfabetização de pessoas adultas, e de lá para cá são muitas andanças em defesa da dignidade desses trabalhadores e dessas trabalhadoras. Aprendi com esse grupo o reconhecimento do ambiente como vital para a nossa vida e o principal valor é a defesa ambiental. É essa defesa que me fez engajar em estudos ambientais e em experiências educativas que contribuam para denunciar o desastre ambiental provocado pelo rompimento da barragem de Fundão, cuja lama de rejeitos de Minérios que atingiu Bento Gonçalves e outras cidades, alcançou o rio Doce e chegou ao mar, atingindo além da fauna e da flora, diferentes grupos e populações. Moro às margens desse rio e tenho me envolvido, no campo da educação, em diferentes atividades formadoras no campo da educação ambiental, para que não nos esqueçamos desse desastre e coloquemos a conscientização ambiental como ponto de pauta e de luta.

 

O AbreCampense: Reitero meus agradecimentos e parabéns.

Encerro feliz e grato a Deus pelas escolhas que faço para o Jornal O AbreCampense.

Professora Maria Celeste, deixe uma mensagem para os leitores e leitoras no intuito de promover a conscientização educacional e social.

 

Antes de finalizar gostaria de dizer que fico muito feliz ao ser entrevistada por um jovem como você que tem o sonho, e o realiza, de organizar um jornal que fale da nossa cidade, das pessoas e que apresenta leituras positivas da vida. Imagino as dificuldades na concretização desse sonho: Parabéns pela utopia.

Bom, a entrevista acabou sendo um corolário de defesas…. Mas (dizem que gosto de falar e de rir), lembro de Paulo Freire nas defesas que faz da educação como um ato de alegria, de engajamentos e de defesa da vida. É dele que busco as últimas letras: “se estamos a favor da vida e não da morte, da equidade e não da injustiça, do direito e não do arbítrio, da convivência com o diferente e não de sua negação, não temos outro caminho senão viver plenamente a nossa opção. Encarná-la, diminuindo assim a distância entre o que dizemos e o que fazemos. Desrespeitando os fracos, enganando os incautos, ofendendo a vida, explorando os outros, discriminando o índio, o negro, a mulher não estarei ajudando meus filhos a ser sérios, justos e amorosos da vida e dos outros.”