ENTREVISTA COM A ABRECAMPENSE MARIA DO CARMO VIEIRA

O AbreCampense: Maria do Carmo, quem são seus familiares em Abre Campo? O que a senhora sabe historicamente do casarão da rua Adalberto Leão em Abre Campo?

 

Meus avós maternos, José Jorge Daher e Málaque Petrus Daher, nasceram em Al-Mitein, no Líbano e estabeleceram-se em Abre Campo, no Brasil, em 1914. Residiram na Rua Adalberto Leão, cuja construção se estendia desde o lado da igreja matriz até a beira do rio Santana, que atravessa a cidade. Ali nasceram 9 dos seus 10 filhos, dentre eles, minha mãe, Catarina Daher Vieira e seus irmãos. A filha mais velha nasceu e viveu no Líbano. O casarão resiste até o momento, mas limita-se a apenas uma casa do lado da igreja. Preserva ainda suas características de “monumento histórico” da cidade.

Minha mãe se casou em 1954 e eu nasci em 1955. Como meus pais moravam em um pequeno sítio na zona rural de Santa Margarida, meus pais, Silvio Vieira Ferreira e Catarina Daher Vieira, permitiram que eu morasse com minha avó e tios em Abre Campo, onde cursei até a oitava série do primeiro grau. Estudei no Grupo Escolar Dom João Bosco até a 4ª série e depois no Ginásio de Abre Campo, até a 8ª série, concluída em 1970. A partir de 1971, fui residir e estudar em Viçosa-MG, onde cursei “colegial”, Agronomia e depois o mestrado e doutorado. Nesses anos, minha irmã, Vera Lúcia Daher Vieira da Silva tem residido em Abre Campo, onde teve dois filhos e dois netos.

 

O AbreCampense: A Senhora casou-se com um equatoriano com quem tem filhos. Como o conheceu? Quais foram as dificuldades culturais, se é que teve? Como foi tudo isso?

Conheci meu esposo, Néstor Antonio Heredia Zárate, durante a realização do mestrado em Agronomia, na Universidade Federal de Viçosa – UFV, em 1979. Ele veio de Guayaquil, no Equador, para cursar o mestrado em hortaliças na UFV, mesma área que eu estava cursando. Percebi que ele tinha dificuldade de entender o idioma, e por isso me aproximei para ajudar nas atividades. Ficamos amigos e posteriormente, começamos a namorar. Após a conclusão do mestrado em agosto de 1980, ele voltou para o Equador.

Concluí o mestrado no final de 1980 e em janeiro de 1981, fui para o Equador, onde vivi por dois anos. Para que eu pudesse ter o visto de permanente, nos casamos em abril de 1981. Durante minha estadia no Equador, enfrentei as dificuldades de quem vive no exterior com poucos recursos financeiros, sendo a menor delas o idioma. Naquela época, o País era bem menos desenvolvido que o Brasil e a nossa situação financeira, por eu não conseguir trabalhar e devido ao baixo salário do meu esposo, dificultaram a vida como um todo, incluindo moradia, saúde e lazer. Residimos em uma casa bem simples, sem nenhuma comodidade e em janeiro de 1982, nasceu nosso primeiro filho, Néstor Daniel. O plano de saúde lá não inclui a família do servidor e não existe assistência à saúde, como no SUS, no Brasil. O Equador é muito bonito, tem muitas atrações turísticas diferentes do Brasil (montanhas, lagos, vulcões e o mar do Pacífico), mas é necessário ter recurso financeiro para aproveitá-las, o que não era o nosso caso. Embora eu sempre tenha vivido separada dos meus pais para estudar, o fato de estar muito distante pesava muito, ainda mais porque os meios de comunicação eram menos desenvolvidos, ou seja, carta – que demorava cerca de 15 dias para chegar – ou, raramente telefone fixo.

Para superar as dificuldades culturais e preencher o tempo, atuei durante os dois anos em que estive lá – desde janeiro de 1981 a janeiro de 1983 – como colaboradora “ad hoc” no Ministério de Agricultura y Ganadería, em Guayaquil, na área de desarrollo campesino (desenvolvimento rural). Desenvolvemos atividades nas propriedades dos pequenos produtores rurais, ministrando cursos teóricos e práticos para técnicos, professores de nível fundamental, produtores e estudantes. Aproveitamos também para escrever um livro com orientações sobre o cultivo de hortaliças.

Como eu não havia conseguido trabalhar formalmente no Equador e o salário do meu esposo era baixo, resolvemos regressar ao Brasil, a partir de janeiro de 1983. Aqui recomeçou nossa luta para conseguir trabalho ou continuar os estudos. O Néstor ingressou no Doutorado na UFV, em Viçosa-MG e eu utilizei parte do meu tempo datilografando (isso mesmo, em máquina de datilografia, emprestada pelo nosso orientador, o professor Vicente Wagner Dias Casali) e corrigindo os trabalhos que alguns alunos da pós-graduação em Fitotecnia da UFV deveriam apresentar como exigência das disciplinas, e eu recebia por isso. Em agosto de 1984, fiz concurso e fui aprovada para ingressar como professora da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul. Meu esposo ingressou em 1985 na mesma instituição. Em Dourados-MS, nasceram nossos outros dois filhos, Silvia Cristina e Danilo Augusto.

 

O AbreCampense: Desde sempre há um enorme esforço para melhor compreender e utilizar a natureza. E as plantas medicinais foram os primeiros recursos terapêuticos utilizados pelos povos.

Maria do Carmo, a senhora que coordenou a organização de um evento anual, o Workshop de Plantas Medicinais de Mato Grosso do Sul (realizado durante 19 anos) e também participou e estimulou atividades de implantação de hortos com plantas medicinais em escolas, postos de saúde e outras instituições compreende como são úteis as plantas medicinais. Por que ainda são, relativamente, tão pouco consumidas? Como fazer para tornar seu consumo mais comum no cotidiano do brasileiro?

 

As plantas medicinais constituem a primeira forma de tratamento usada pela humanidade. Os primeiros botânicos eram médicos e um deles, Hipócrates, só aconselhava medicamentos vegetais e dava as suas consultas entre plantas, ao ar livre. Na América Latina, antes mesmo da chegada dos europeus, os índios, em especial civilizações como maias, astecas e incas, utilizavam plantas medicinais para curar diversas doenças e como corantes naturais. Um dos primeiros registros brasileiros ocorreu por volta de 1549, pelos jesuítas que se encarregaram de catalogar, experimentar e empregar largamente as ervas medicinais brasileiras.

Em certa época, entretanto, o uso das plantas começou a declinar como meio curativo, especialmente, porque as pessoas tenderam a preferir o que é exótico, mais fácil de usar ou divulgado pela mídia, especialmente a estrangeira. Além disso, com a descoberta e uso de medicamentos químicos e a industrialização, ficou mais fácil utilizar esses produtos que, não se pode negar, em alguns casos, são imprescindíveis. No entanto, esses medicamentos, além da agressividade pelos efeitos colaterais e teratogênicos, têm sido usados excessivamente como elementos de exploração e dependência econômica, além de serem de difícil acesso por algumas camadas da população.

Esse cenário, no entanto, vem passando por transformação, devido à busca por uma vida mais saudável e a resultados de pesquisas que apresentem perspectivas concretas para o desenvolvimento de novos fármacos, com plantas medicinais usadas na medicina popular. Estima-se que 82% da população mundial utilizem produtos à base de plantas medicinais. A tendência tem sido de aumento, especialmente na Europa e Estados Unidos; a França, a Alemanha e o Japão possuem uma indústria bem desenvolvida no setor. Na China e na Índia, o uso de medicamentos de origem vegetal é maior do que o de quimiossintéticos. No entanto, embora o Brasil possua a maior diversidade vegetal do mundo – nos Biomas Cerrado, Mata Atlântica, Amazônia, Caatinga e Pampas -, apenas 8% das espécies foram estudadas para a pesquisa de compostos bioativos e 1.100 espécies foram avaliadas em suas propriedades medicinais. Poucas drogas são desenvolvidas no País a partir de plantas medicinais. De acordo com a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA), há 421 fármacos fitoterápicos no mercado brasileiro, sendo apenas dez produzidos a partir de plantas nativas do País, dentre eles, o anti-inflamatório Acheflan, da erva baleeira (Cordia verbenacea).

Então, como fazer com que o consumo de plantas medicinais seja maior entre os brasileiros? Estimulando as pesquisas com resultados que comprovem a possibilidade do uso com segurança e eficácia e divulgando esses dados para a população. Não podemos perder de vista o fato de que as plantas medicinais fazem parte do nosso dia a dia, pois seu uso não se restringe ao chazinho da vovó. Elas estão presentes há muitos anos em fitoterápicos usados sem que a gente percebesse, como no melagrião, melpoejo e funchicória, muito usados para crianças. Mais recentemente temos no mercado o pasalix, maracujina, ginseng, xarope de guaco, acheflan e figatil, dentre outros. Também não percebemos sua presença nas pastas de dentes, nos cosméticos em geral, nos sucos (hortelã com abacaxi), nas saladas (hortelã, manjericão, sálvia, alecrim e outras) e nos fitoterápicos artesanais e industrializados. Necessitamos, no entanto, ter mais profissionais capacitados a reconhecerem a fitoterapia como uma opção de tratamento.

 

O AbreCampense: Quais plantas medicinais são mais fáceis de plantio caseiro, como plantá-las, como consumir e quais suas atividades?

Antes de explicar diretamente a pergunta, quero deixar registrada a importância de se cultivar as plantas medicinais. Isso porque, embora o mercado de fitoterápicos esteja crescendo, tem sido atendido, na maioria das vezes, com matéria-prima sem padronização e, ainda, fruto do extrativismo sem critérios, ou seja, as plantas ou suas partes são retiradas da natureza sem cuidados, gerando risco de lavá-las à extinção. Quanto ao cultivo no ambiente doméstico, é recomendável priorizar espécies mais comuns, fáceis de cultivar, e que são usadas mais tradicionalmente e muitas vezes também como condimento, por já terem seus estudos de atividade já comprovados e sem riscos para a saúde. São geralmente plantas exóticas – originadas de outros países – mas muito bem adaptadas ao Brasil, e cultivadas há muitos anos. Dentre as espécies de mais fácil cultivo, citam-se as seguintes que são propagadas por mudas, com respectivos nomes científicos e atividades: hortelã (Menta x vilosa – vermífuga e antiespasmódica), manjericão (Ocimum spp.- antioxidante e antinflamatória), alecrim (Rosamarinus officinalis – contra enxaqueca e melhora a imunidade), melissa (Melissa officinalis – sedativa), cidró (Aloysia triphylla – contra insônia e problemas digestivos), babosa (Aloe arborescens – cicatrizante), guaco (Mikania glomerata – expectorante), boldo (Plectranthus barbatus – contra males hepáticos), carqueja (Baccharis trimera – protege o fígado e ajuda na digestão) e erva cidreira de folha (Lippia alba – antiespasmódica). Ocorrem naturalmente nos quintais ou podem ser propagadas por sementes: tansagem (Plantago major – infecção de garganta), camomila (Matricaria chamomilla – ansiedade, insônia, antiespasmódica), hibisco (Hibiscus sabdariffa – melhora o funcionamento intestinal e controla o colesterol) e calêndula (Calendula officinalis – cicatrizante). Todas essas espécies podem ser usadas internamente, na forma de infuso (chá).

 

O AbreCampense: Maria do Carmo, obrigado pela atenção e por ter sido tão solícita. Parabéns pela família, pela profissional e abrecampense que é. Desde já fica o convite para trazer mais sobre as plantas medicinais e seus benefícios à população abrecampense através do nosso jornal e até mesmo uma parceria futura em algum projeto voltado para Abre Campo, como o de implantação de hortos com plantas medicinais em escolas e outras instituições. Obrigado!