O AbreCampense: Quando e como você descobriu sua vocação de atleta maratonista?
Sidinei Fernandes: Desde criança praticava exercícios físicos. Gostava de jogar futebol e gostava também de estar preparado fisicamente para competir. No dia 31 de dezembro de 2002, se não me engano, aconteceu uma corrida rústica em Abre Campo, e um amigo me sugeriu participar, dizendo que eu tinha potencial. Então fiz a inscrição e participei da minha primeira maratona, terminando a corrida em primeiro lugar. A partir daí, tomei gosto e tudo começou.
O AbreCampense: Como é seu treinamento?
Sidinei Fernandes: Tenho ajuda de uma assessoria. Sigo uma planilha. São seis treinos por semana, é importante um dia para descanso, geralmente segunda feira. Sábado e domingo treino pela manhã e os outros dias à tarde. Porém, tudo varia com a condição do clima, chuva, semana que antecede uma competição, e meu trabalho na roça. Seguindo a planilha, saio de uma prova, descanso no dia seguinte, um treino leve, regenerativo, para soltar a musculatura, então faço treinos de tiros, ou seja, corridas em curtas distancias num pequeno tempo, e repetições e repetições intervaladas. Fortalecimento e rodagem de 10 KM marcando o tempo e baixando-o gradativamente, chegando no KM final próximo de 3 minutos.
O AbreCampense: Sidinei, além de atleta maratonista campeão, você também é um trabalhador rural. Como é lidar com tantas dificuldades: pouco apoio financeiro, estrutura precária para treinamentos, pouca renda, luta diária para sustentar a família e ser um atleta de alto nível.
Sidinei Fernandes: Não é fácil. Tenho que me superar todos os dias. Muita dedicação, foco e treino. Certa vez, meu pai estava muito doente e precisava de medicamentos. Não tínhamos dinheiro para comprar os remédios. Pedi ajuda aos amigos e me emprestaram. Então, inscrevi para uma corrida rústica em Abre Campo, e fui para a prova com o compromisso de ganhar para receber a premiação em dinheiro e pagar o empréstimo. Era ganhar ou ganhar. Durante a prova, só pensava que era preciso vencer para receber o dinheiro. Venci. Lembro também um dia, voltando de ônibus para casa, depois de uma prova que participei, desembarquei em frente o Posto Minas Mar, eram duas horas da manhã, chovia muito, não me restou alternativa a não ser… Correr.
Corri uns 6 km até minha casa, aqui no Monte Belo, zona rural de Abre Campo. Outra ocasião, o dinheiro era pouco, as latas aqui em casa estavam vazias, e queria participar da Volta Internacional da Pampulha, fazia a compra de casa ou corria. Meu pai emprestou um pouco dinheiro, fiz a compra e fui para a corrida. Mas tive que regrar muito como deixar de fazer algumas refeições, mesmo assim participei da maratona. Também numa Volta Internacional da Pampulha, o dinheiro era contado: pagar hotel, alimentação e transporte. Lembro que a corrida foi num domingo e cheguei na sexta. Fui para um hotel e paguei diárias até domingo. No sábado,
tentei sacar dinheiro e o caixa eletrônico informou que o cartão estava bloqueado. Fiquei sem dinheiro, então fiquei sem almoçar e jantar no sábado. Domingo, fui para corrida apenas com o café da manhã do hotel. Mesmo assim, completei a prova. Mas competir mal alimentando é muito complicado. E o pior, não sabia como voltar para casa. Minha irmã me emprestou um celular para levar depois de insistir muito, pois eu não tinha celular. Ela estava adivinhando. Minha solução foi vender o celular para comprar a passagem de ônibus. As dificuldades são muitas. Já passei por um tanto de momentos difíceis, aliás, ainda passo.
O AbreCampense: Quais são as principais competições que você participou?
Sidinei Fernandes: Foram três competições muito especiais. Se Vira nos 30, no Espírito Santo, um desafio, Circuito Unimed Vale do Aço e Volta Internacional da Pampulha, em Belo Horizonte. Participei duas vezes da maratona Se Vira nos 30, onde tive uma grande superação. Superei os limites do meu corpo. Uma prova com 30 KM, vários tipos de terreno: asfalto, trilhas, matas e estrada de chão batido. Mais de 80 atletas com níveis fortes. Na primeira
oportunidade, consegui alcançar o tempo de 2 horas e 16 minutos, terminando a prova em 10º lugar. Este ano voltei e consegui ser campeão, com o tempo de 1 hora e 52 minutos. No Circuito Unimed Vale do Aço, eram três etapas: Timóteo, Ipatinga e Coronel Fabriciano. Fui campeão nas três etapas do circuito, eleito o melhor atleta maratonista do ano. Recentemente, dia 8 de dezembro, participei pela 8ª vez da Volta Internacional da Pampulha e conquistei minha maior vitória, foi a prova mais importante da minha vida. Fui 2º colocado geral amador. O pelotão de elite partiu e só após 3 minutos foi liberada a largada para geral, mesmo assim,
ultrapassei quatro profissionais. Foi uma vitória!
O AbreCampense: Muito obrigado, Sidinei. Foi ótimo conhecer um pouquinho da sua historia. Você é um exemplo. Vamos torcer por você sempre. Você representa muito nossa querida Abre Campo. Tomara que alguém conheça mais do seu trabalho através desta entrevista e você consiga mais patrocínios. Vamos ajudar, pessoal!
Sidinei Fernandes: Agradeço a oportunidade pela entrevista.
Agradeço poder contar um pouco minha história. Muito Obrigado.