O AbreCampense: Geraldo Fernandes, como surgiu sua vocação por equinos? Você teve alguma influência familiar ou foi na formação de curso superior, como aconteceu?
Geraldo Fernandes: Tenho sim. Tenho influência familiar e também o curso superior de veterinário. Sou formado em Viçosa/MG. Minha família sempre gostou de cavalos, meu pai é fazendeiro e também gosta de cavalos, então de uma forma ou de outra influenciou. Meus avós também gostavam, os paternos não cheguei a conhecer, mas sei que gostavam pelo que dizem e os maternos da mesma forma.
O AbreCampense: Há quantas raças de equinos no Brasil? Há determinadas raças para determinadas atividades? De um modo geral, qual raça você acha a melhor? Qual raça mais se desenvolveu nos últimos anos no Brasil?
E quais os tipos de pelagens você conhece? Qual você acha a mais bonita?
Geraldo Fernandes: Hoje existem em torno de 27 raças no Brasil. Cada uma tem uma determinada função. Há animais que são para tração, outros para lazer, passeio, para trabalho, para sela, cada raça tem uma determinada função. Biologicamente a raça que eu mais gosto é a raça mangalarga marchador que é a raça que eu mais mexo. Acredito também que é a raça que mais cresce. Temos hoje em torno de quinze a dezesseis mil associados. Existe um movimento muito grande. É um animal de sela, macio, para participar de cavalgadas, confortável, de índole muito boa. Acredito que o mangalarga marchador e o cavalo quarto de milha são as raças que mais crescem, e o mangalarga marchador tem o maior movimento. Sobre as pelagens, existem várias, castanho, tordilho, rosilho, alazão, cavalo pampa, que pode ser pampa de preto, pampa de castanho, pampa de alazão, pampa de tordilho, inúmeras pelagens. A pelagem que mais gosto é a tordilho devido ao mangalarga marchador, que é a raça que eu gosto e que criamos lá em casa, e na sua essência, boa parte dos animais são da pelagem tordilho, por isso é que eu mais gosto.
O AbreCampense: Geraldo Fernandes, o chamado “dente de lobo” as vezes em muitos equinos, considerados tecnicamente o primeiro molar, não tem função na mastigação do animal, mas pode ferir as bochechas, línguas e entrar em choque com a embocadura, podendo ser extremamente desconfortável o que consequentemente prejudica o andamento e até mesmo o temperamento.
Há controversas no mundo inteiro entre médicos veterinários que trabalham com odontologia equina, relacionadas com a extração do “dente de lobo”. Quando o “dente de lobo” nasce no local correto, tende a não causar muitos danos, porém mesmo assim podem receber choques pequenos e os animais são abalados facilmente causando dor. O que você pensa quanto ao “dente de lobo”?
Geraldo Fernandes: Há pessoas que pensam que não compensa extrair, outras acham que devem extrair. Ouvimos comentários que antigamente ninguém extraía o dente de lobo. Eu acredito que deve extrair porque existem animais que mesmo tendo o dente de lobo não tem nenhuma reação quando você trabalha com ele e em contato com a embocadura. E já existem outros animais que têm reações por causa do dente de Lobo. Quando o animal tem o contato no dente de lobo e cria uma reação à embocadura ou ao trabalho devido a esse dente, cria-se um trauma e você tirar trauma na parte de equitação é mais trabalhoso. Então entendo ser mais coerente, antes de começar a doma, antes de começar o trabalho com o animal, antes do uso da embocadura, já extrair o dente de Lobo por garantia, portanto sou adepto da extração do dente de Lobo antes do contato com a embocadura e prevenir do trauma e ter que depois trabalhar para tirar o possível trauma.
O AbreCampense: Outro assunto muito controverso é a “travagem” em equinos. Há uma corrente que acredita ser uma doença. Acredita que a travagem é uma inflamação do palato do cavalo. Trata-se de um processo inflamatório transitório do revestimento mucoso, junto à face interna dos dentes incisivos superiores. Um sintoma característico da palatite é o aparecimento de um “bolo de carne” no céu da boca. O animal tem dificuldade para se alimentar e fica magro e feio, mas não é a palatite que faz com que o animal emagreça, e sim os sintomas que ela provoca como a mastigação lenta e dolorosa, salivação e exposição constante da língua, o que pode levar a um emagrecimento lento e progressivo. O animal tende a deixar cair alimento da boca durante a refeição, ou até mesmo a se recusar a comer. Neste caso defende-se a cirurgia para a retirada da “travagem”.
Enquanto outra corrente defende que é mito. Que existe sim, porém é apenas uma inflamação do palato, um tipo de afecção rara que pode ser causada por uma ferpa ou pelo ato da aerofagia. E que mesmo assim nunca deve ser cortada ou queimada.
E você Geraldo, o que pensa sobre a “travagem”? É mito ou doença?
Geraldo Fernandes: Já vi tirar a travagem. Hoje eu não tiro. Eu vejo animais que estão em cocheiros que estão bonitos e que tem o aumento de volume como dito, travagem. Não tiro e não indico porque é uma cirurgia invasiva, há cortes e sangramentos. Há até pessoas que queimam. Aumentando muito o volume, há o tratamento com antibióticos e anti-inflamatórios e outros tratamentos secundários. E no mais é apenas alimentação boa, de qualidade, um alimento mais macio, pois não há problema.
O AbreCampense: Você trabalhou há alguns anos no Haras São Roque. Um Haras muito renomado na época. Depois você se transferiu para um Haras em Montes Claros e foi lá que você deu um enorme salto na profissão quando descobriu e treinou o cavalo Forró do Arte. Como foi esta história?
Geraldo Fernandes: Em 2012 eu fui para São Roque/SP trabalhar no Haras Cartagena, na época um dos melhores haras do Brasil, um dos que mais havia investido. Aconteceram alguns problemas financeiros e acabei voltando para Minas. Minha esposa é do Norte de Minas, então voltei a trabalhar sozinho com consultorias. Em 2014 num haras que eu atendia, começamos a treinar um cavalo por nome de Forró do Aro que veio posteriormente em junho no nacional mangalarga marchador ser campeão nacional categoria Cavalo Jovem e logo em seguida foi comercializado a metade deste cavalo por quinhentos mil reais e a outra metade uns seis meses depois por oitocentos mil reais, portanto avaliado na época por um milhão de reais.
O AbreCampense: Geraldo, como é sua prestação de serviço hoje? Como é seu dia-dia, o que você faz exatamente quando visita um criador?
Geraldo Fernandes: Hoje trabalho com treinamento, preparação para pista, com formação de mão de obra. Trabalho basicamente com equitação. Vou ao haras, fico o dia todo, vejo os animais que estão sendo treinados e preparados para pista, monto o animal, vejo o que ele precisa evoluir, passo um trabalho e mensalmente eu retorno, vejo como o animal está, o que necessita para ter uma evolução, passo para o peão que vai montar e no mês seguinte eu volto, vejo novamente se o animal correspondeu aquele trabalho, se foi feito ou não, em seguida passamos outro trabalho sempre buscando a evolução.
O AbreCampense: Entre os dias 17 e 28 de julho deste ano foi realizada a 37ª Exposição Nacional do Cavalo Mangalarga Marchador no Parque da Gameleira em Belo Horizonte/MG. Iniciativa da Associação Brasileira dos Criadores do Cavalo Mangalarga Marchador, o evento é considerado o maior da América Latina. Na ocasião seu nome foi citado algumas vezes pelos locutores do evento. O que mostra o reconhecimento pelo seu trabalho. Parabéns!
Recentemente você criou uma empresa de assessoramento aos criadores de equinos com o slogan: “Levando seu animal ao reconhecimento nacional”.
Isto já é uma realidade? Nesta edição, a 37ª Exposição Nacional do Cavalo Mangalarga Marchador, você treinou quantos e quais cavalos? Algum campeão?
Geraldo Fernandes: Graças a Deus esse ano foi um ano muito abençoado. Só tenho a agradecer a Deus. O Nacional do Mangalarga Marchador é o evento mais disputado, o mais desejado por todos. E este ano nós fomos com um número considerável de animais treinados, em torno de 50 animais mais ou menos, de 8 haras que eu estava atendendo com consultoria. Fizemos 19 campeões nacionais, foi um número expressivo. E dentre eles tivemos o cavalo Magnífico da Corte que foi o Reservado Campeão dos Campeões Nacional de Marcha. Então, o segundo melhor cavalo de Marcha do Brasil foi treinado por mim, Geraldo Fernandes, Graças a Deus!
O AbreCampense: Geraldo Fernandes, muitíssimo obrigado pela entrevista. Certamente você é orgulho e exemplo para os jovens abrecampenses. Sucesso sempre! Deixe uma dica de montaria e andamento bastante útil no dia-dia de todos que lidam com equinos em Abre Campo e região.
Geraldo Fernandes: Gostaria de agradecer pela oportunidade. Sou de Abre Campo, meus pais moram em Abre Campo, constantemente vou na casa dos meus pais. Gostaria de agradecer pela oportunidade de estar falando um pouco do meu trabalho para o pessoal daí. Para quem monta cavalo, primeiramente tem que gostar, pois quando fazemos aquilo que gostamos o resultado sempre é melhor. Sempre fazer o básico. Falo sempre nas minhas consultorias, com a turma que trabalha comigo para não inventar, fazer o básico, o que precisa. Para quem monta, para quem treina cavalo sempre fazer o básico e o simples que resolverá boa parte dos problemas no dia a dia. Muito obrigado! Abraço.
• O termo aerofagia significa deglutição de ar. Nos equídeos esse hábito é bastante conhecido e descrito, não tendo restrição a raça, idade ou sexo, e estando diretamente associado ao estresse provocado em animais estabulados.