Entrevista com Vanda Martins Dias de Paiva

 

O ABRECAMPENSE: Vanda Dias, filha de Oliel Bruno Dias – Leléu Satil e Therezinha Martins Dias. Licenciada em Pedagogia – Orientação Educacional – em 1987 pela FAFILE – Faculdade de Filosofia Ciências e Letras de Carangola/MG. Então, naquele tempo, certamente haviam muitas barreiras para alcançar uma graduação, ainda mais sendo uma mulher. Quais foram as barreiras?

VANDA DIAS: Na verdade, me formei professora no Curso Normal,  Segundo Grau,  na Escola da Comunidade Abre Campo, atualmente, Escola Estadual Abre Campo, em 1983. Desde criança sonhei ser professora, inclusive brincava de escolinha. Naquele tempo, em Abre Campo era comum a mulher fazer um curso profissionalizante na área da educação e casar-se. Uma barreira enfrentada era os próprios pais que muitas vezes priorizavam os estudos dos filhos homens. Havia uma certa dificuldade financeira por se tratar de uma família numerosa e para estudar precisava pagar, o colégio cobrava uma mensalidade. Alguns conseguiam bolsa de estudo. Os livros também não eram gratuitos, precisávamos comprá-los. E eram caros. Outra dificuldade enfrentada foi quando ingressei na FAFILE. Já trabalhava para custear meus estudos, porém havia atraso constante no pagamento do salário de professora e consequentemente eu atrasava o pagamento da faculdade pois, além da mensalidade pagávamos livros, xerox, transporte, alimentação e estadia. Meu maior temor era meu nome aparecer na lista dos inadimplentes. A instituição fixava uma relação com os nomes dos inadimplentes na sala de aula, tornando público os “maus pagadores” (risos), o que era admitido na época. Para lotar o ônibus, juntavam estudantes de Abre Campo, Sericita, Matipó, Realeza, São João do Manhuaçu, pois havia a necessidade de pelo menos 40 pessoas para conseguirmos uma passagem mais acessível. Lembro bem que algumas pessoas levavam marmitas e dormiam na faculdade. Saíamos daqui nas sextas-feiras às 15H, estudávamos sexta à noite, sábado pela manhã e parte da tarde e só chegávamos na noite de sábado em Abre Campo. Apesar de tudo, minha turma era unida, estudiosa e alguns colegas residentes em Carangola nos davam todo o suporte possível.

O ABRECAMPENSE: E após sua graduação pela FAFILE, qual foi sua trajetória até a aposentadoria?

VANDA DIAS: Continuei trabalhando como professora na Rede Municipal e prestei concurso para a Rede Estadual. Fui nomeada em 1992 na Escola Estadual Dr. Custódio de Paula Rodrigues, lá no Povoado de Aparecida.Trabalhei também na formação de professores, no Curso de Magistério, na Escola Estadual Abre Campo e no ano de 2000, fui eleita pela comunidade escolar e assumi a direção dessa escola. Foram anos desafiadores, passamos por várias mudanças, inclusive, novas Propostas de Ensino. Houve um aumento significativo no número de alunos, mais oportunidades para os profissionais de ensino, bem como uma grande reforma na estrutura física do prédio escolar. Foi também uma oportunidade para mim de crescimento profissional com estudos, participações em cursos, desenvolvimento de projetos incluindo a comunidade escolar, relacionamento com os pais, parceria com o comércio local. Toda a comunidade sempre apoiou nosso trabalho. Sou grata. Adquirimos a Fanfarra (Conjunto de Instrumentos Musicais) da qual me orgulho muito. Fiquei por três mandatos consecutivos como diretora e em 2012 retornei para a sala de aula trabalhando como Professora Alfabetizadora e também no Curso para formação de Professores da Educação Infantil. Recentemente, aposentei e pretendo, em breve, trabalhar como professora de Reforço Escolar. Assim, continuarei me inteirando das mudanças e novidades, afinal, tenho um netinho – Joaquim – que logo estará nos bancos escolares.

O ABRECAMPENSE: Vanda Dias, como foi preparar as aulas remotas e qual a importância do espaço escolar físico para o aprendizado?

VANDA DIAS: Preparar as aulas remotas foi um desafio muito grande. Sou adepta às mudanças e desde logo procurei estudar, dedicar mais e interagir com outros colegas adaptando-me  a essa nova realidade. Uma das dificuldades foi contactar o aluno que não tinha acesso à internet mas, através da direção e orientação aos pais, consegui lograr êxito com minha turma – o que não foi a situação de todos. O WhatsApp foi uma ferramenta muito útil e importante, e aos poucos fomos aprendendo a lidar com essa nova realidade. O espaço físico escolar, é muito importante para a criança. O ser humano é social por natureza e essa convivência é necessária para o aprendizado em todos os aspectos, seja cognitivo, emocional e social. Além da alimentação para a criança carente, o acompanhamento pessoal, horários, regras, ouvir o sim, o não, aguçar a curiosidade, o afeto,  enfim, o espaço físico e a convivência diária melhora de fato o aprendizado.

O ABRECAMPENSE: Durante sua carreira profissional de professora, o que já ouviu de positivo dos alunos?

VANDA DIAS: Até outro dia, guardava cartinhas e bilhetes de alunos e pais agradecendo, infelizmente levados pela enchente. Ouvi muitas frases que me motivaram muito. Quando o professor sente que ficou algo a mais na essência de cada um e que o aluno se tornou melhor é muito gratificante. Já ouvi:

“Obrigado pela sua paciência e compreensão.”

“Deus lhe pague por tudo.”

“Nunca esquecerei de determinada aula.”

“Você foi muito importante na minha vida escolar.”

“Escolhi o curso de psicologia por causa das suas aulas.”

“Meu filho está formando em engenharia hoje, e te agradeço, pois, todas as vezes que fui chamada na escola, você dizia: “Não podemos desistir desse menino.”

O ABRECAMPENSE: Neste mês de outubro, comemoramos o Dia do Professor e da Professora. Profissão árdua de grandes guerreiros e guerreiras. Sabemos que os obstáculos são constantes e muitas vezes o reconhecimento é ínfimo. O surgimento de boas mentes nas diversas profissões depende do professor. Parabenizo através da sua pessoa, Vanda Dias, todos os professores e professoras . Parabéns!

VANDA DIAS:

A você, que como eu, sonha ser um dia professor (a):

“Quero um dia dizer às pessoas que nada foi em vão…que o amor existe, que vale à pena se doar às amizades e às pessoas, que a vida é bela sim e que eu sempre dei o melhor de mim…e que valeu a pena”.

Mário Quintana.