O PATRONO

Na década de 1950 tentei escrever uma biografia de meu Pai, a “Vida do Presidente Suassuna, Cavaleiro Sertanejo”. Chamei-a assim porque sempre vi Suassuna como um Rei e Cavaleiro: entre outras coisas ele tinha três Cavalos de sela, todos com nomes de Cangaceiros do grupo de Lampião: Passarinho, Bom-Deveras e Medalha. Não consegui escrever o livro, por causa da carga de sofrimento que ele me acarretava. Mas hoje, velho e mais sereno, vou ver se, a partir da figura de meu Pai, consigo dar aqui pelo menos uma idéia do que significa para mim ser, depois do Patrono, o terceiro ocupante da Cadeira nº 35 da Academia Paraibana de Letras.
Escolhi o dia 9 de Outubro de 2000 para tomar posse dela porque hoje faz exatamente 70 anos que meu Pai, João Suassuna, aos 44 anos de idade, foi assassinado, no Rio de Janeiro, com um tiro que um pistoleiro, para isso contratado, lhe desfechou pelas costas. Muito tempo depois, o grande paraibano que foi Alcides Carneiro, adversário de Suassuna em 1930, afirmou: “A revolução de 30, que não me arrependo de ter apoiado pelo mundo de esperanças que ela encerrava, nasceu maculada com o sangue de um inocente. Sangue paraibano. Sangue sertanejo. O sangue do paraibano autêntico, do sertanejo viril que se chamou João Suassuna. Não culpo o assassino pela covardia com que agiu. Atacar Suassuna de frente não era empresa para covardes”.
Alcides Carneiro poderia ter dito “os assassinos”: porque o mandante e os empreiteiros, se eram dotados de maldade igual à do executor, foram mais covardes do que ele, pois não tiveram nem sequer a coragem de comparecer à Rua do Riachuelo, no Rio, onde a emboscada se consumou.
Outro fato que desejo recordar é que Euclydes da Cunha, com quem, aliás, meu Pai fisicamente se parecia, foi também assassinado numa emboscada, traiçoeiramente preparada e friamente executada, morrendo aos 43 anos, quase a mesma idade de Suassuna no dia em que foi morto. Euclydes da Cunha era o escritor brasileiro que meu Pai mais admirava, prestando-lhe um culto que, na medida de minhas forças, tenho procurado continuar.
Por isso, como afirmei em meu discurso de posse na Academia Brasileira de Letras, ainda menino cheguei à arbitrária convicção de que, a 9 de Outubro de 1930, eu fora escolhido para ocupar, na vida, uma Cadeira ideal, cujo Fundador, João Suassuna, escolhera Euclydes da Cunha como seu Patrono. Posso dizer que, como escritor, sou aquele mesmo menino que, perdendo o Pai em 30, passou o resto da vida tentando protestar contra sua morte por meio do que faz e do que escreve, oferecendo-lhe esta precária compensação por sua morte brutal e injusta e, ao mesmo tempo, buscando recuperar sua imagem por meio da lembrança, dos depoimentos dos outros, das palavras que o Pai deixou.
Para mim, o galardão acadêmico é uma honraria que aceito, orgulhoso, mas não disputo. Pertenço, agora, a quatro Academias, que cito pela ordem de minha entrada nelas. A primeira foi a Brasileira. A segunda, a Taperoaense. A terceira, a Pernambucana. A quarta é a Academia Paraibana de Letras, da qual um dos Patronos é aquele que João Suassuna, por ele educado, considerava como seu Pai espiritual, meu tio-afim Antônio Gomes de Arruda Barreto.
Assim, não exagero ao dizer que, de todas, a Academia Paraibana de Letras é a que me estava mais claramente apontada pelo destino. Tendo passado em Taperoá aquele que talvez seja o período mais decisivo para a criação do universo de um escritor, a infância e a adolescência, o Patrono da cadeira que hoje assumo é Raul Machado, nascido em Taperoá. E, em meu romance “A Pedra do Reino”, fiz uma referência a esse fato, no capítulo em que se fala da Academia de Letras dos Emparedados do Sertão da Paraíba. Conta-se lá, ao modo de Quaderna:
“O caso do genial Raul Machado bem demonstra como a Literatura pode ajudar uma pessoa a subir em sua carreira: porque foi com seus admiráveis Sonetos que ele escalou, de degrau em degrau, a escada da Magistratura, chegando até o posto de Ministro do Tribunal de Segurança, o grau mais elevado da nobreza-de-toga brasileira”.
Assim, nascido em Taperoá, o Patrono da cadeira nº 35 foi adotado como personagem meu 30 anos antes de eu assumi-la. Seu Fundador é outro Ministro, José Américo de Almeida, cuja obra-maior, “A Bagaceira”, foi editada pela primeira vez em 1928, pela Imprensa Oficial da Paraíba, por ordem de meu Pai, que, para isso, atendeu a um pedido de Nelson Lustosa em favor daquele que então era adversário político de Suassuna. E outra coincidência curiosa é que, ao tomar posse da mesma Cadeira nº 35, o iniciador paraibano do “ciclo do romance de 30” lembrou-se de ligar o nome de Raul Machado ao meu. Primeiro, José Américo informa que Raul Machado “nasceu em Taperoá, a 7 de abril de 1891”. E acrescenta:
“Taperoá é um recanto do nosso Cariri. Se está chovendo, parece um paraíso. Entretanto, se o sol aperta, perde a natureza todas as suas leis. Vira um violento panorama de ventos sujos e céus ensanguentados. Empoeirado e luminoso. Há febre na terra e um bafo quente no espaço… Faltou (a Raul Machado) a emoção evocativa. Seria fantástico se essa visão não tivesse deixado nenhum reflexo, como o timbre regional de Ariano Suassuna, que andou por lá. Explica-se. (Raul Machado) não guardou as impressões do berço inconstante porque, tendo um pouco mais de um ano, vinha a família morar na capital. O dramaturgo da “Compadecida” colheu uma experiência que, por ser tipicamente nordestina, foi uma revelação para o mundo”.