Tarcísio, jovem de 12 anos, caminha pela Rua da Lavra onde o calçamento acaba perto da casa de Dona Vilma. Neste instante Sr. Yolando entregou um telegrama para o Sr. Geraldo Bastos, que acabara de abrir a padaria. Mais a frente vê Chico Turco, que por tomar muito sorvete ficara rouco. Passa pela casa de Sr Iado, que lutara na segunda guerra mundial, encontra com Zequinha cego e vai até o Grupo de Lata, e ainda escuta os passos de sua mãe Zizinha e de D. Arlete e D. Ilca, as professoras que ensinaram para várias gerações!
O adolescente agora vai para a rua da praia, passa pelo sobrado de Maria Pinga Ouro, da casa de Dona Ermezilia e escuta Mané Dirceu bravo, gritar para Evandro e Nenêm Gamela entrarem para almoçar. E vê a “Guarida” repleta de jovens. Pensou em beber uma cerveja, mas não tem idade para isto. Para um pouco e vê o juiz, Dr. Joaquim, buzinando na carreata após a vitória do Brasil na Copa do Mundo. Passa, então, pela sua memória que naquele dia o Fórum estava fechado e seu tio Afonsinho estava em casa, e segue em frente.
Vê o bar do Sô Ivo, o bar do Zé Franco, o Hotel Vera Cruz e continua a caminhar. Passa pelo Posto Esso de Lazim Bastos, para na biquinha e volta. Antes, porém, diz um olá para a professora Helena, que ia para sua casa, vendo o Sô Dico passar devagar. Caminha mais um pouco e de longe vê Zezim Paderim e Wladimir abrirem sua loja. Anda para a “Rua Nova” de Valtim sapateiro e de Dona Lalá. Déia está na janela pensando geografias. Perto do “Balança-mais-não-cai” olha para a mercearia do Zinito e o vê vendendo querosene. Passa pelo sobrado de Paizim, mas que já fora morada das filhas de seu avô Agostinho do Loia. Na biquinha, que já existiu um dia, mata sua sede e caminha.
Caminha no chão batido, pois o asfalto ainda não existia, até o hospital. Mais à frente diz um “como vai” para o Zeca eletricista e marcha em frente. Tatão Miranda está fumando um cigarrinho na porta de seu comercio no Sarandi. Perto da rua do cemitério, cujo calçamento acaba lá em cima na primeira curva, Zé Geraldo de Benzico e João Cabaça lhe sorriem alegres. Na porta da casa de João Tramelinha mantém com ele um dedo de prosa. Quando voltou a caminhar passa Tio Mundinho e tia Rodomira, de charrete. Vai andando e o Grupo Dom Bosco vai ficando para trás. Na ponte, Sô Neto por estar em atendimento no consultório, não aparece! Na praça Tiradentes, ao lado do cinema, escuta o barulho do motor movido a pedaladas, no consultório dentário de Antônio Amorim. Na farmácia de Sô Marinho diz um “oi” para Dona Jacira e para Dona Eponina do outro lado da rua. Na praça da Igreja sorri para Dona Leticia, que lhe ensinara a ler e escrever. Sr. Vavinho está na porta de casa conversando com Dona Amélia, Dona Tagiba e Dona Neném, suas vizinhas. Virando-se para a Igreja pede a benção ao Padre Geraldo e olha para o prédio do Fórum, construção antiga e imponente. Ao lado dele a irmã de Dem é a telefonista: sem ela nenhuma ligação telefônica era completada.
Perto de sua casa, na Praça Sant’Ana nº 77, lembra que vai engraxar os sapatos do Dr. Otávio. Lembra também que não passou pela “avenida” e veria o Colégio, onde o diciplinário Vilmar lá estaria e onde o Matuzalém, o professor de Educação Física dava aulas. Aí o jovem, cansado por ter passeado por toda a cidade, entra em casa e seu pai, Sr. Zezito, lhe esperava preocupado. Meu avô, Sr. Dorce, queria ver a mim, seu neto!
Só os mais velhos vão se lembrar das pessoas.
José Tarcísio Gonçalves
