Abrecampense Ausente Milton Barbosa da Silva Júnior

Quem viveu a infância em Abre Campo está estragado para a vida. É um troço danado: o sujeito vai embora em busca do sonho e passa a vida sonhando com aquela felicidade de antes. A tranquilidade, os amigos fartos, o conforto do ninho, o calor da família grande de conterrâneos. Felicidade de graça. Quem conheceu esta felicidade espontânea, inocente, não se satisfaz completamente com as diversões fabricadas que o mundo afora tem a oferecer.

Na infância, férias eram na roça, casa do meu avô Sobi. Mês adentro, pé afundado na poeira alta, carona em carro de boi, fruta do pé, orvalho da manhã fria no campo gramado, um cheiro de lugar nenhum. Tempos de aula, bola na quadra, na rua, em qualquer lugar, soltar papagaio no pasto, ficar de molho na piscina do clube, tocar no coral da igreja. Estudo, mesmo, muito pouco. Como poderia ser diferente, vivendo ali? Só depois, no segundo grau, tomei gosto.

Foi isto tudo o que me custou ir adiante, perseguir meu sonho. Preço alto, mas não podia ser feito em Abre Campo. O destino era levar um pouco de Abre Campo para o mundo. Saí aos 18. Cedo, sempre vou achar. E foi muito difícil no começo. Poderia ter ficado muito mais. Pelo menos, conhecer a felicidade plena nos dá um norte, que nos leva adiante, todo dia.

Depois que saí, já vivi outros 18, outra vida que passou bem mais rápido. Cinco anos estudando Biologia em Ouro Preto, três de Mestrado em BH, outros aqui e acolá, no Brasil e lá fora. Já rodei um bom pedaço do mundo. Passei frio nas montanhas do Canadá algumas vezes, escalei árvores gigantes na Austrália para fazer pesquisa, voei em um balão em Vanuatu para alcançar o topo das florestas, conheci as muralhas da China. Mais cinco anos na Inglaterra e me formei Doutor em Zoologia pela Universidade de Oxford. Sonho realizado! Todo esse tempo, em qualquer lugar, Abre Campo esteve comigo, no meu modo de ser e de fazer. Carrego um pouquinho de tudo aquilo que coletei na juventude, do afeto das pessoas com quem convivi, do que me ensinaram. Sou grato a todos.

Hoje estou vivendo em Belo Horizonte, sou pesquisador na Universidade Federal de Minas Gerais. Abre Campo é remanso em rio caudaloso que arrasta com pressa, onde vez em quando me estaciono e o tempo parece parar um pouco. Longe, longe eu andasse, nunca menos de duas vezes por ano passei por lá. Não podia. Como falo com minha mãe, é o único lugar nesse mundo inteiro em que o dedo do pé relaxa de verdade.

 

Milton Barbosa da Silva Júnior

Abrecampense ausente

Filho de Milton Barbosa e Maria das Graças Barbosa